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Quando pensamos em construções antigas e, mais especificamente, em ruínas muitas vezes imaginamos objetos ultrapassados e sem vida, carecendo de utilidade e um propósito de existência. Como se as edificações possuíssem um prazo de validade e deixassem de servir de alguma maneira após esse período. Em oposição a isso, é necessário repensar esses espaços que tiveram diferentes usos e funções no passado, merecendo uma segunda oportunidade para sua reabilitação e reutilização na atualidade.

É com o objetivo de revitalizar um exemplar único em suas qualidades que este projeto se propõe a transformar ruínas da época romana num novo recinto acolhedor de exposição para arte contemporânea. A proposição, aqui, demonstra a adaptação necessária de uma cisterna romana transformada em espaço para a arte de nosso tempo. São esses passos de transfiguração que serão explicados e detalhados, para a compreensão ampla e completa desta ideia.

O primeiro ponto para esta modificação foi um estudo das reminiscências romanas, do que permaneceu no local e como isto se relaciona com seu entorno e ambiente no qual está inserido. Ao observar atentamente as condições existentes, percebeu-se a riqueza estrutural e estética interna com os grandes e robustos pilares e os arcos, que marcam o espaço pela escala. A imponência e a altura do local facilitaram e incentivaram o conceito de utilizar níveis internos diferentes para distribuir parte do programa do museu.

Com a análise do local no qual a edificação está implantada, percebemos a qualidade da vista existente numa das pontas do recinto, o que nos fez utilizar essa condição como guia principal do projeto. Utilizamos a paisagem que circunda o terraço e a visual do Lago di Miseno para instigar o visitante num passeio que percorre a área superior às ruínas antes de entrar na cisterna propriamente dita, criando um caminho que faz com que todos os aspectos que circundam o edifício sejam observados.

Além desse percurso, a ideia de ocupar a área do terraço está relacionada com a falta de identidade exterior que o edifício apresenta na atualidade, sem a presença de algum elemento mais forte que possa distinguir o conjunto. A partir disso, pensamos em volumes que recebessem parte do programa e atividades ligadas ao museu, localizados na cobertura das ruínas, permitindo uma organização completa entre exterior e interior da edificação e que desse vida a todo o complexo. Também a cobertura metálica com sua forma leve e permeável pretende dar uma unidade a essa proposta de habitar o terraço da cisterna.

Um ponto importante deste projeto é o cuidado com a estrutura dos novos elementos, que pretendem não interferir com o edifício existente. Para isso, foi pensado um sistema de tirantes presos à cobertura metálica exterior que suportam a armação interior, dando sustentação aos níveis dos volumes e do interior da cisterna. Dessa maneira, não há colocação de peso sobre as ruínas, seus pilares e arcos, mantendo a integridade da edificação. Outra questão que atentamos nesta proposta era de apresentar elementos que possuam o conceito de reversibilidade.

Na parte interna, então, optou-se por propor a área expositiva, voltada para a reutilização do interessante espaço criado pela estrutura existente. Esta foi pensada em níveis diferentes, para criar circuitos de visitação variados, permitindo combinações de percursos nos quais o visitante pode vivenciar diferentes pontos de vista. Uma opção é permanecer apenas no nível -3m num circuito exclusivo para obras apresentadas em suportes específicos, ou explorar os níveis -5m e -7m, nos quais se encontram obras maiores e sem necessidade de um suporte de exposição.

Para dar suporte à função principal do museu foram criadas áreas de serviço e apoio internas que visam oferecer aos visitantes um maior conforto durante a sua estada no recinto. No nível -3m, junto ao circuito de telas, temos a loja para adquirir produtos do museu e livros, além da recepção, que acolhe na entrada e saída do percurso. Também foi pensado, no nível -7m, um núcleo de sanitários que servem quem visita o museu e um espaço de armazenamento para a guarda de obras e outros materiais.

Com a intenção de dar um novo uso a esta edificação, optamos por organizar o programa tanto no exterior como no interior da preexistência, tentando relacionar melhor o edifício com seu entorno. Desta maneira, além de apenas revitalizar uma antiga ruína, estamos oferecendo um novo espaço de convívio para as pessoas da comunidade, fazendo o que é o pressuposto principal de toda restauração: conectar o patrimônio ao seu local de origem e às pessoas que convivem diariamente com ele.

Equipe de projeto: Eduardo Possamai, Fernanda Voigt, Gustavo Görgen e Maria Seadi

Ano: 2020